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sábado, 15 de setembro de 2007

"Zé Ramalho faz a síntese do Nordeste"


No dia 12 de abril de 1978, o jornal "O Globo" publicou uma longa entrevista com Zé Ramalho feita pela jornalista Ana Maria Bahiana. Dois anos depois, essa mesma entrevista faria parte do livro "Nada será como antes - MPB nos anos 70" (Ed. Civilização Brasileira, 1980) que a jornalista lançaria, contendo várias entrevistas com outros artistas que ela fez ao longo do tempo. A entrevista de Zé Ramalho que transcrevo abaixo, está nas págs, 230/235.


"ZÉ RAMALHO FAZ A SÍNTESE DO NORDESTE" - Ana Maria Bahiana
"Olhos de fogo, rosto anguloso e maníaco, uma cabeleira enorme, dedos ossudos vibrando a viola, voz metálica: quem assistiu à estréia de Alceu Valença em teatro, aqui no Rio, há três anos, recordará muito bem a aparição/intervenção de Zé Ramalho da Paraíba às horas tantas do show desafiando o titular do concerto numa cantoria doida que partia de "Edipiana no. 1"e acabava em "Beija-flor" e "Treme-terra", "Octacílio Batista", "Zé Limeira", o que desse e viesse. Ameaçador. Intenso. Impressionante. Estranhamente, contudo, Zé Ramalho desapareceu logo depois, após uma rixa com Alceu em pleno palco, em São Paulo. Parecia mais uma carreira promissora terminada antes de começar, vitimada pelas já históricas dificuldades do mercado brasileiro.
-Era uma tensão insuportável - Zé Ramalho recorda hoje. - A gente estava em São Paulo numa casa bem atrás do aeroporto, era hélice e turbina o dia inteiro, a gente não conhecia a cidade, só ficava o dia todo, sem perspectiva nenhuma, sem saber o que fazer. Porque aquela excursão tinha lá um monte de nome de gente organizando, promovendo, não é, mas era só nome, mesmo, só pela firma, porque quem fazia tudo era a gente mesmo, era divulgação, montar aparelhagem, tudo. Uma coisa desgastante, aflitiva. E eu estava cada vez mais chocado com a agressividade da coisa toda, o clima de competição, uma coisa desesperada. Aí uma noite, no palco mesmo, em vez de fazer o meu número, que era "Jacarepaguá", me deu vontade de cantar "Vila do Sossego". Ficou um clima estranho, o Alceu se zangou, houve violas quebradas, mas nenhum escândalo. As pessoas acharam que era do show. E eu voltei pra Paraíba, pra pôr minha cabeça no lugar, juntar os pedaços.
Hoje, Alceu canta a violenta "Vila do Sossego"em seus shows, como homenagem ao companheiro: "Em seus papiros Papillon já me dizia/que nas torturas toda carne se trai/e normalmente, comumente, fatalmente, displicentemente/o nervo se contrai/com precisão".
E Zé Ramalho da Paraíba estréia hoje enfim em disco - pelo novo selo Epic, o "progressivo"da gravadora CBS - e, em concerto até domingo, no Teatro Tereza Raquel. Curiosamente cercado, já, por muito falatório tipo expectativa, e a escolha pelos leitores do Jornal da Música, como revelação de compositor de 1977.
-Não lamento nada do que fiz. Acho que faria tudo de novo, inclusive os erros. A palavra mais importante, pra mim, é síntese. Fiz uma síntese dos erros, e isso foi muito bom. Eu não acho ruim que as coisas sejam difíceis, batalhadas. Se fosse fácil, menina, já viu o que ia ter de qualquer um aí se achando o máximo, mandando ver. Tem de ser duro, mesmo, porque isso é que faz teu trabalho crescer, faz você ver se tem valor mesmo, se acredita no que faz.
A história de Zé Ramalho da Paraíba é tão estranha e intensa como sua música - e, como sempre a explica. Na sua música, os sons vêm expresso do sertão, secos e incisivos, mesmo quando interpretados por guitarras ou sintetizadores. E as letras causam espanto para quem não conhece a maravilha do repente, fonte onde Zé Ramalho bebe com frequência e humildade. São martelos, mourões, sextilhas, quadras - rigorosamente no estilo, rigorosamente alucinadas como é a melhor poesia do sertão, e urgentemente contemporâneas. Dizendo, por exemplo: "Se eu calei foi por tristeza/você cala por calar/calado vai ficando/só fala quando eu mandar/rebuscando a consciência /como meio de viajar/até a cabeça do cometa/girando na carrapeta/no jogo de improvisar ("Avôhai").

"Zé Ramalho faz a síntese do Nordeste"- Part 2

"No entanto, não foi cantoria e repente que Zé Ramalho se lembra de ter ouvido com atenção, pela primeira vez, mas Beatles e Roberto Carlos. Morava então em João Pessoa, meados dos anos 60, estudando no Colégio Marista. O sertão de Brejo do Cruz, onde nascera, a 3 de outubro de 1949, parecia uma lembrança opaca, uma fotografia.
-Meu pai, eu nem conheci. Morreu afogado num daqueles açudes do sertão quando eu tinha uns dois anos. Dizem que não fazia nada, era um seresteiro, um boêmio... A figura forte, para mim, ficou sendo meu avô, que foi até lá em Brejo do Cruz e tirou a família toda daquela situação de pobreza. Tirou mesmo, saiu puxando, retirante mesmo, em pau-de-arara. Levou a gente primeiro para Campina Grande, onde ele era fiscal, sabe fiscal de porteira como eles chamavam, ficava na fronteira controlando quem entrava e quem saía. Teve uma morte linda, meu avô. Parecia um rei. Morreu assim na cama na casa que ele construiu, com todos os filhos e netos e bisnetos em volta, eu fiquei assim comovido de tanta beleza, de ver uma pessoa indo adiante tão bonito, tão sereno, olhando em volta e vendo que tudo aquilo tinha saído dele, toda aquela gente. (É a figura já mítica do velho fiscal de porteira que abre o álbum de Zé Ramalho, evocado na canção "Avôhai": "Um velho cruza a soleira/de botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar/na laje fria onde quarava sua camisa e seu alforje de caçador/oh meu velho e invisível Avôhai").
De Campina Grande para João Pessoa e, lá o Colégio Marista, o rádio, os Beatles, os Rolling Stones e Roberto Carlos, as primeiras posições no braço do violão.
-Eu comecei a querer fazer música por causa do rádio, do que eu ouvia no rádio. E o que eu ouvia era isso, era principalmente Beatles e a coita toda da Jovem Guarda. Beatles, então, foi demais. A primeira vez que ouvi Beatles, fiquei impressionado, nunca tinha ouvido coisa tão forte, tão bonita. E, aí, os inevitáveis conjuntos para festa, baile, clube, boate: os Jets, os Demônios. "Era uma cópia mesmo, sabe, o que a gente queria era tirar a música, igualzinho ao disco. Mas foi muito bom como treinamento , como aprendizagem profissional."

Nota do blog: Zé Ramalho fez parte também de um grupo de baile chamado "The Gentlemen". Eles lançaram um LP, mas nesse disco Zé Ramalho não participa.


"E, como em todo canto - talvez mais aguda lá, em João Pessoa, "lá em cima", como Zé Ramalho diz "cidade pequena, restrita, onde o que influencia é o que vem do Sul, é como um grande alto-falante repetindo as coisas daqui de baixo"- a febre inicial dos conjuntinhos acabou tomando proporções maiores, uma tentativa meio louca, meio ingênua de viver, aqui, o sonho roqueiro que já estava terminando em seus países de origem.
-Ah, teve isso demais, lá. Eu toquei muito em festivais ao ar livre, essas coisas. Sabe, Woodstock, tudo isso, todo esse sonho, a gente acreditava pra valer. Só que as dificuldades lá eram imensas, era quase impossível fazer qualquer coisa, simplesmente não existiam os recursos.

Zé Ramalho chegou a vir várias vezes ao Rio, no início dos anos 70, "pra ver como é que era, o que estava sendo feito, quem tocava, como é que se fazia shows e tudo mais. Foi uma coisa louca, de dormir em banco de praça, virar rato de porta de show, essas coisas". Na época, estudava medicina - mas não por muito tempo. Já no segundo ano descobriu que não tinha nascido para ser doutor e resolveu buscar, na música, um caminho próprio. Pouco a pouco afastando-se de seus tempos de roqueiro, mas ainda sem saber em que direção ir, embora um antigo instinto, ou a memória que nunca morre, às vezes lhe soprasse, sem sentir, os rumos que segue, hoje. Foi, desse modo, por exemplo que, ao lado de outros jovens músicos nordestinos como Lula Côrtes, Paulo Rafael, Geraldo Azevedo e o próprio Alceu, que Zé Ramalho criou e executou o álbum duplo Paêbiru/Caminho da montanha do sol, para a etiqueta Rozenblit, selo original do Recife. Gravado "do modo mais artesanal, louco e carinhoso possível", em dois canais, durante quase todo o ano de 74, o álbum era uma espécie de suite em torno da legendária Pedra do Ingá, na Paraíba, rochedo coberto de misteriosas e indecifradas inscrições.

-Tinha muitos sons elétricos, mas eu já usava muito coisas como martelo agalopado, só que vestidas numa linguagem elétrica. Foi um trabalho lindo, que ficou assim como um registro histórico de uma época, de uma geração de músicos nordestinos.
O álbum nunca foi lançado comercialmente, e a maior parte de suas cópias foi perdida no alagamento dos depósitos da Rosenblit, durante as cheias do Capibaribe, no final de 74."

Nota do blog: Também raro e menos conhecido do público é o compacto simples "Réquiem para o circo - Made in PB", lançado em 1976 e que tem a participação de Zé Ramalho, declamando.\ um texto. Esse compacto, revolucionário para a época, era do grupo Ave Viola, da Paraíba, liderado por Dida Fialho, cantor, compositor e violonista de João Pessoa que ganhou o prêmio de melhor intérprete em um festival de música de São Paulo nos anos 70. O compacto é em formato de poster , dobrado em partes que formam a capa.







"Zé Ramalho faz a síntese do Nordeste"- Part 3

"O passo seguinte foi com Alceu, impulsionado no início de 75 pela boa repercussão de seu "Vou danado pra Catende: no festival "Abertura". O fim da jornada, briga, amargura e desilusão. Quase.
Na verdade, um renascimento. Um nascimento, na acepção da palavra: no final do ano Zé Ramalho foi procurado, em João Pessoa, por sua amiga, a cineasta Tânia Quaresma, que começava a rodar seu documentário "Nordeste: cordel, repente, canção". Tânia queria que Zé Ramalho fizesse a direção musical do projeto contactando cantadores e violeiros, ajudando-a na escolha do material. Não deixava de ser um desafio insólito para um ex-roqueiro, interessado por cantoria, mas sem maiores conhecimentos do assunto, na época. E Zé Ramalho se atirou ao trabalho de corpo e alma, com resultados surpreendentes:
-De repente, foi como se acordasse alguma coisa em mim que já existia há muito tempo, mas que estava assim meio esquecida, adormecida. Comecei a perceber como era fácil transar com aquele pessoal todo, era como se eu já conhecesse aquilo tudo há tempos, o que num certo sentido era verdade, só que eu não me dava conta. Aí eu mergulhei mesmo, fiquei louco com a força daquilo tudo, principalmente o repente. O repente é uma coisa incrível, os repentistas são verdadeiros criadores na acepção da palavra, criando coisas complexas na hora, sem hesitar, no minuto mesmo. Nem todo cantador é repentista, só alguns poucos, uma espécie de elite, porque é uma arte muito requintada. E são pessoas assim que tem uma cultura enorme, tem muitas enciclopédias e livros em casa, e os que são analfabetos, é claro - lêem muito, são sempre informados de mitologia, geografia, história, tudo, porque, num desafio, tem que ser rápidos na
resposta, tem de saber todos os assuntos.

-Aí eu fiquei de tal forma apaixonado, que quando acabou o trabalho da Tânia, continuei por conta própria, saí pelo sertão ouvindo, gravando, ganhando amizade dos cantadores a ponto de, daí a um pouco, já estarem vindo na minha casa, fazer cantoria. E isso, para mim, não teve nenhum conflito com o que eu gostava antes, com o que eu fazia. Porque eu acho que, se alguma coisa é sincera e bonita, em música, então não importa de onde veio. É claro que o rock e os Beatles expressavam uma realidade deles, lá, mas aquilo me tocou a sensibilidade, então não havia porque jogar isso fora. Já estava dentro de mim. Mas a força do repente foi tamanha que, se algum lado meu saiu perdendo nesse confronto, foi meu lado mais antigo, de roqueiro.

Quem conhece o mundo do repente e da cantoria, logo liga o trabalho de Zé Ramalho ao de outro Zé, o Limeira, o Buñel do sertão, poeta alucinado, surrealista. Foi certamente de Zé Limeira que Zé Ramalho tirou a inspiração para seus "a cor desse olho é denso negror/é como o bafejo da Hidra de Sal/dragões do meu sono que rasgam anúncios da televisão" e "meu treponema não é pálido nem viscoso/os meus gametas se agrupam no meu som". E ele não nega:

-De todos, pra mim, Zé Limeira é o maior, o mais impressionante. Tem gente que acha ele absurdo, engraçado, mas eu não vejo graça nenhuma na poesia dele: para mim é tudo muito exato, muito real, é o sertão mesmo. Tenho depoimentos de violeiros muito antigos, que tocaram com ele, descrevendo sua figura: era impressionante, muito louco, uma coisa muito bonita. Imagine, lá nos anos 40, um preto enorme, quase dois metros de altura, com os dedos cheios de anéis, cheio de colares, lenço vermelho, um chapelão, andando a pé, porque ele só caminhava, não usava transporte nenhum. Devia ser uma coisa linda.

Alimentado pela síntese final, o encontro do Zé Ramalho urbano com o menino de Brejo da Cruz, o trabalho estava pronto. E, acreditando nele como nunca, Zé Ramalho desceu novamente para o Rio, disposto a "romper com o mundinho de João Pessoa, a família, os medos todos" e lutar por sua música. Depois de um ano difícil, afinal encontrou sua brecha, com substancial ajuda de Carlos Alberto Sion, produtor de seu disco. E,mais do que fé, tem força para continuar adiante.

-Acho que não vai haver nunca mais um movimento na música brasileira, mas não precisa. Não tem nem cabimento. Movimento é a cabeça de cada pessoa, e o fato dessas pessoas estarem aí trabalhando, mostrando sua música e sendo ouvidas apesar de todas as dificuldades.

E o fato de, hoje, existirem tantos nordestinos agitando na música brasileira mais atual, seria coincidência ?

-Ah, não sei...O que a gente lá de cima tem é um sangue muito forte, muito rebelde mesmo, essa coisa de Lampião, de não se conformar, de querer romper com as coisas e suplantar os obstáculos. E depois a cultura, o som de lá é muito forte, mesmo, uma coisa muito inteira que só quem é de lá conhece naturalmente, porque foi muito deformada aqui pelo Sul. Talvez seja a soma disso que marque o trabalho de tanta gente de lá na música, hoje."
(O GLOBO, 12/04/1978)


E foi, nesse mesmo ano, que Zé Ramalho fez um show fundamental em sua carreira e que o alavancaria de vez para o sucesso e o reconhecimento do grande público. Foi em São Paulo, no Teatro Célia onde ele lançou o seu disco daquele ano que tinha a canção AVOHAI, um de seus maiores sucessos. Nesse show ele contou com a participação dos conterrâneos Pedro Osmar e Cátia de França que também estavam chegando de João Pessoa atrás de seus espaços para mostrar sua arte. Amelinha, na época sua esposa, também participou desse show cujo repertório pode ser conferido ao lado.


Mas foi no ano de 1981 que Zé Ramalho realmente pode dizer que a consagração total havia chegado. Era o mes de novembro e ele faria uma apresentação do Projeto Seis e Meia (de Albino Pinheiro) , no Teatro João Caetano, em plena Praça Tiradentes no centro do Rio de Janeiro. O show começaria às 18:30hs, mas às duas da tarde, os ingressos já estavam esgotados. Zé Ramalho e a Banda Potiguar "Flor de Cáctus" que dividia o show com ele, foram então para o meio da praça fazer o show para um público delirante que consagrou o paraibano e teve a surpresa de ver a participação especial de Raimundo Fagner que estava dividindo o palco com Zé Ramalho pela primeira vez. Foi no meio da canção "A terceira lâmina", título do terceiro disco de Ramalho, que Fagner entrou, deixando a platéia extasiada enquanto o cearense se atrapalhava todo, errando a letra e apelando para os lá, lá, lá, lá, ê ô... "Eternas Ondas" (de Ramalho e sucesso de Fagner) veio a seguir, seguida de "Fanatismo" e o final com "Frevo-mulher" . Nesse show a recepção do público mostrou a Zé Ramalho que a jornada de Brejo da Cruz até o Rio de Janeiro tinha, finalmente, valido a pena.