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sábado, 9 de fevereiro de 2008

Abel Silva - Letristas, esta raça !

Artigo de ABEL SILVA, publicado no Jornal “Rádio X” - O seu jornal do rádio– Ano II No. 5 – 1990 – Editores: Renato Ferreira e Oscar Marron Filho.

LETRISTAS, ESTA RAÇA!

Vamos logo esclarecer, leitor: isto não é nenhum estudo crítico e/ou analítico não. Fique frio. É puro ôba ôba mesmo. Celebração. Testemunho de amor e gratidão aos poetas brasileiros das canções que fizeram e fazem minha cabeça. E, certamente, a sua.
Você já deve ter ouvido falar de letristas. De passagem, claro. É aquele cara para quem as pessoas chegam, e dizem: “mas aquela música é sua ?” Letrista é sempre o da tabelinha: dá e recebe. Recebe e dá. Por favor, não confundir com os neofranciscanos que não dão, recebem e entregam. Letrista vive do passe – sua glória é deixar o parceiro na cara do gol. É bonito o exercício da parceira! Eu adorava quando ouvia no rádio que tal música era de uma dupla. Imaginava: que coisa linda, duas pessoas se juntam para fazerem uma canção!
Depois descobri que esta é mais uma das lições populares. Ainda agora o Carlos Cachaça contou que o Cartola chegava para ele e dizia: ô preguiçoso, acaba este samba aí... Isto é parceria. Alegria da arte compartilhada.
Um dos orgulhos de minha vida é ser letrista. Poeta de canções. E como tem gente que vive disso no Brasil! Total, integralmente. E como tem quem gostaria de cometer uma letrinha ou outra e imaginá-la no ouvido do povo. Ou no olvido, o que é sempre mais provável. Pertenço a uma geração que somou algumas boas dezenas de nomes ao que de melhor existe em música brasileira. São hoje uns rapazes e moças com quatro dezenas de anos nas costas, mas a maioria em excelente estado de conservação física e poética. E quase todos confessam: foi Vinícius que, no meio da encruzilhada, apontou: é por aqui, moçada. Saiam dessa de poeta engavetado, “superior”, e caiam no samba. Façam a poesia voar com as canções porque foi assim, junto com as primeiras e toscas melodias humanas, que ela nasceu, muito antes da possibilidade da escrita, milênios antes do livro e da tirania do olho, lá na raiz dos primeiros gritos e sussurros, foi lá que nasceu a poesia e ela foi desde o princípio comunitária, tribal: musical ! E além do mais vocês sabem, cambada de sacanas, que isto aqui é uma terra de analfabetos e belas mulheres e pra ser entendido por elas e, com sorte, amado por elas, o melhor que vocês fazem é cantar seus versinhos ao violão. Sábio Vinícius de Moraes !
Mas pra ele não foi nada fácil essa estória de ser compositor popular. Nunca é fácil pros pioneiros. Foi malhado pacas. Manuel Bandeira, por exemplo, achava que Vinícius estava “facilitando”, caindo de ní caindo de nneiros. Foi malhado pacas. Manuel Bandeira, por exemplo, achava que Vin amado por elas, o melhor que voc escrita,vel , apelando. Ele andou fazendo umas letras, mas esclarecia sempre que aquilo não era propriamente poesia: que bandeira do grande Bandeira ! E logo ele, um poeta tão musical. Tanto que já o andaram maltratando em várias canções, quem sabe por vingança... Mas Bandeira não era o único. Na verdade, os poetas em geral exercitavam uma certa superioridade: poesia musical era coisa de iletrados. Folclore. E compositor popular era pobre e, geralmente, negro ou mestiço: era dose pra um literato !
Mário de Andrade entendia o valor dos poetas das canções. Mas Vinícius foi mais longe: se transformou num deles.
É claro que a poesia musical, tanto quando a falada, é diferente da escrita. Só a voz humana sonorizando-a ao contrário do olho, silenciando-a – já é uma diferença radical. Como a poesia musical se realiza no som, isto é, no espaço sonoro e não visual, algumas características – como o uso da rima, por exemplo – permanecem nela (embora não obrigatoriamente) enquanto praticamente deixaram de existir na poesia escrita. A poesia musical busca algum tipo de emoção comunitária, ritualística, enquanto a escrita se não despreza esta “emoção de multidões’, também não a corteja. Tudo bem, são diferentes. Mas por que da diferença tem que surgir a hierarquia e não a diversidade ? No azul, pardal!
Há boa e má poesia literária e musical.
Graças à Vinícius e à qualidade da poesia das gerações de poetas posteriores a ele, hoje este sentimento de quase condescendência de literatos em relação ao letrista é minoritário e anacrônico. Mas permanece...na maioria dos críticos ! Por alguma razão ainda não totalmente esclarecida (embora já tenham ocorrido várias tentativas de explicação psico-analíticas, político-culturais e o escambau), a maioria dos nossos críticos musicais trata o letrista de uma forma que faria inveja aos antigos censores militares pela eficiência de seus métodos: negam créditos, “esquecem” nomes, trocam uns pelos outros, enfim, nos colocam num saco de gatos anônimos. O que resta de um autor quando lhe é negada a autoria ?
Mas joguemos o jogo: “não sou eu quem vai dizer que você não teve pique”. O letrista, meu chapa, é muito mais que um fazedor de versinhos musicais, programador de palavras cantáveis. É quem informa o primeiro conceito de poesia – e, na arrasadora maioria das vezes no Brasil, o único – para milhões de pessoas. É ele o articulador político, são letristas os primeiros organizadores da luta pelo direito autoral, os que denunciaram e denunciam o racismo, os autoritarismos, as repressões, a caretice e a prepotência, os que expressam as minorias, os desvalidos, os sem vez nem voz, são eles que cantam a utopia e a liberdade, os que traduzem a dor e a alegria do povo. A palavra cantada é a pedra na vidraça do poder, o coquetel molotov no meio dos cacetetes e capacetes. É também a palavra musical que striptiza teus sentimentos mais secretos, dá voz à tua dor de amor, teu ciúme e desespero. Sem a palavra cantada você seria inexoravelmente mais só e silencioso.
E finalmente: quem no mundo de hoje se interessaria por este exótico código a que chamamos Língua Portuguesa, se não porque voam por aí, levadas pela voz dos intérpretes, as sedutoras palavras dos letristas brasileiros ?
Por isto leitor, grite comigo: SALVE O COMPOSITOR POPULAR !!!

Abel Silva faz canções para o rádio, como Jura Secreta, Festa do Interior e Amor Escondido.

Abel Silva - Os discos

Abel Silva - Ao pé da letra - foi lançado em 1988 e reuniu alguns dos grandes sucessos do compositor com diferentes parceiros e pelas vozes dos grandes intérpretes que consagraram suas canções como Elis Regina, João Bosco e , principalmente, Raimundo Fagner.

ABEL SILVA - AO PÉ DA LETRA

Lado A

1 - Festa do interior (Moraes Moreira/Abel Silva) - Sérgio Mendes
2 - Merengue (Robertinho de Recife/Abel Silva) - Robertinho de Recife e Gal Costa
3 - Quando chega o verão (Dominguinhos/Abel Silva) - Dominguinhos e Luiz Gonzaga
4 - Bicho estranho (Sueli Costa/Abel Silva) - Joanna
5 - Asa Partida (Fagner/Abel Silva) - Fagner
6 - Trasnparências (Roberto Menescal/Abel Silva)

Lado B

1 - O primeiro jornal (Sueli Costa/Abel Silva) - Elis Regina
2 - Jura Secreta (Sueli Costa/Abel Silva) - Fagner
3 - Simples carinho (João Donato/Abel Silva) - Ângela Rô Rô
4 - Desenho de giz (João Bosco/Abel Silva) - João Bosco
5 - Rosa do viver (Sueli Costa/Abel Silva) - Maria Bethânia
6 - Quando o amor acontece (João Bosco/Abel Silva) - João Bosco

Em 2000, junto com o grande violonista cearense Nonato Luiz, Abel Silva gravou o CD "Baú de Brinquedos" em que registra suas parcerias com Nonato. Devido a sua grande afinidade com os músicos cearenses e tendo em Raimundo Fagner um dos grandes intérpretes de suas canções, muitos pensam que Abel Silva é nordestino, mas ele é carioca.

O Cd foi gravado nos estúdios Ararena, em Fortaleza e traz a participação especial de Fagner na faixa título. As outras músicas são interpretadas pelo próprio Abel.

BAÚ DE BRINQUEDOS - ABEL SILVA E NONATO LUIZ

1- Baú de Brinquedos - voz: Fagner
2- Tanta coisa da vida
3- Às vezes
4- A flor e o passageiro
5 - Febre
6 - Mouro blues
7 - Só mais esta vez (Artifícios de mulher)
8 - Na beira do rio, na beira do mar
9 - Janela vazia
10 - Boca de mulher
11 - Desde menino
12 - Sorriso breve
13- Outra história
14 - Aquele olhar
15 - A flor e o passageiro (declamada)

Todas as músicas são de autoria de Abel Silva e Nonato Luiz

Abel Silva - O livro

MUITO PRAZER

Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim
Eu sou assim

Wilson Batista

Não posso lhes dizer quem sou
porque me ocorre não ser exato
e desconfiar dos seguros
dos abstêmios e dos inocentes.

Relâmpagos, marés, triângulos,
amo as naturezas pontiagudas
e os devastados pela paixão.



Amo a água e o vento
que ensinam o método dos arrancos
e aos espasmos trituram
rochedos milenares.

Amo intensamente o mar
e sua capacidade de ser ao mesmo tempo
de frente
e secreto.

Amo os cavalos
que Clarice Lispector chamou de
“os mais nus dos animais. ”

Amo os colibris, os tiês e os sabiás
mas respeito a grande capacidade de organização de massas
dos pardais.

Tenho uma sincera antipatia pelos pombos.
eles burocratizam o vôo e
pombas, como rodopiam pra comer alguém...

Considero todas as religiões boas
pra quem gosta de dizer
amém.

Não amo o dinheiro
mas não tenho preconceito.
cá pra nós, é mesmo vil o tal metal !
eu concluo isto toda vez que recebo
o meu Direito Autoral.

Nascido em fevereiro
imagino algumas relações naturais
por uma ótica ao revés:
sonho peixes pescando as gaivotas pelos pés.

Amo a palavra
e entendo o desamparo de quem não consegue pronunciar
PROBLEMA, CLÁSSICO E METEOROLOGIA.

Todos os infernos existem
mas pra ser sincero
eu não mereço nenhum.

Tiro de letra qualquer uniforme
e sairia feliz na Beija-Flor
num terno de estopa:
meu andar é que me leva
não a minha roupa.

Não ponho cartas
não jogo búzios, não leio horóscopos
não bebo destas minas
astrais:
“nada está escrito”
como ensina
Octavio Paz.

Pois é,
eu sou assim:
muito prazer, Abel.
não seja Caim.

(Texto de apresentação para os espetáculos do autor no projeto POETA, MOSTRA A TUA CARA de Solange Kafuri).

In: “Só uma palavra me devora” – Abel Silva – Ed. Record, Rio de Janeiro, 3ª, ed, 2001
Páginas 146 a 148.