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quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Será que Chico Science ficou sabendo ?


Este artigo abaixo transcrito é de autoria de Pedro Osmar, cantor, compositor, artista gráfico, e pensador paraibano e um dos fundadores do projeto cultural coletivo "Jaguaribe Carne" que influenciou muitos artistas como Chico César, por exemplo. O artigo foi publicado na revista cultural de Fortaleza "Arraiá Pajéurbe "no. 2 de janeiro/fevereiro de 2002.


SERÁ QUE CHICO SCIENCE FICOU SABENDO ?


" Jomard Muniz de Brito e Ariano Suassuna: a tensa corda da cultura em Pernambuco gerando diálogos e o que o novo sempre pôde sugerir na vida e na arte, em se tratando de saídas e caminhos apontados para o futuro, mais que escuro: aquela luzinha brilhando dentro da casa da gente, dentro da cabeça da gente, para muitas outras possibilidades de clarão, onde e quando a indústria cultural pôde ou não funçar com suas pinças quase sempre cheirando a merda. Anos 70, 80, 90, até dias de hoje: a rosa dos ventos do Alceu Valença, Lula Côrtes, Zé Ramalho, Ivinho, Israel Semente, Geraldo Azevedo, entre outros, a partir de algumas provocações de um certo cidadão, fotógrafo paulista, chamado Paulo Klein que baixou naquele momento nas casas e nas vidas dessa galera que prontamente atendeu ao chamado radical e festivo de época para a experimentação, para as profusões de exercícios criativos em música, poesia, artes plásticas, cinema, etc eram momentos, atos e atitudes manifestas, manifestos que traziam muito do que Pernambuco sempre legou para a cultura nordestina e brasileira. Quando Alceu Valença e sua Banda Batalha Cerrada aportaram no Festival "Abertura" da Rede Globo em 1975 com a música "Vou Danado prá Catende"(em cima do poema de Ascenso Ferreira) o fizeram como sementes dessa micro revolução plantada por essas viagens e carícias, fruto de uma vontade geral, ampla e irrestrita de acender o novo, de novo, pelas ruas, mangues, tocas, favelas e mansões daquele período tão carente de novidades ( e ainda hoje). Importante saber: Raul Córdula, Chico Pereira, Carlos Aranha, Marcus Vinícius de Andrade, Celso Marconi, Jomard Muniz de Brito e tantas outras cabeças paraibanas e pernambucanas já antenadas, também estavam presentes nessa festa desde os anos 60, época em que o manifesto tropicalista foi elaborado, discutido e assinado em Recife por essa geração que não arredou o pé e tem segurado a onda até hoje. Não foi à toa que no início dos anos 70, mesmo com todo o movimento armorial, quintetos violados e bandas de pau e corda procurando reler o regional pelo regional, o regional para os salões da elite, o regional como um mero artifício do cão que quer morder o próprio rabo, novos produtos foram surgindo na vida cultural de Pernambuco oriundos dessa viagem para o novo: livros e discos alternativos que foram levando aquela geração para a extrema criatividade, para uma eterna mocidade, para um radicalismo cangaceiro, de um conteúdo fundado mais na senzala do que na Casa Grande, mais no terreiro do que na Igreja, e principalmente na soma da viola caipira de Ivinho e Zé Ramalho com a guitarra enlouquecida de Robertinho de Recife e o tricórdio de Lula Côrtes, sim Lula Côrtes e Kátia Mesel, a dupla dinâmica que forneceu a base de muita coisa que veio a acontecer por aqueles dias de loucura criativa e boemia roqueira. E daí, dessa genealogia comportamental, que vem um livro fundamental: o livro das transformações, livro-objeto, projeto, projétil, processo que seria a ponta de lança de um tipo de literatura que iria além da palavra, que ousaria chegar à invenção de um novo procedimento, até chegar à Bienal Internacional de Arte e ser reconhecido como um marco do "livro como obra de arte" do nordeste ainda dos coronéis. (Anos depois, década de 90, Fortaleza retomaria essa idéia de um projeto mais arrojado como suporte contemporâneo de sua literatura através da revista Arraiá Pajéurbe, busca e nova procura para um reposicionar o nordeste nessa atualidade cultural em curso). Em Pernambuco, naquela época, havia muita coisa no ar. Inclusive helicópteros, aviões e discos voadores poéticos , deuses e demônios poéticos participando dessa festa cuja repercussão tem seu eco revigorado no movimento manguebeat dos anos 90, luz de Josué de Castro como um outro provocador de situações sociológicas novas para Pernambuco e para o mundo. (A geopolítica da fome com guitarras e tambores, anunciando um novo Carnaval para essa década culturalmente tão feliz), Chico Science e Nação Zumbi: a refumaça da comunicação como trombeta dos índios de paletó e gravata da pós-modernidade, e tudo ou quase tudo (polêmicas à parte) , começando com a simplicidade do conjunto The Jets (erguendo-se aí a ponte sonora das guitarras e vozes "Jovem Guarda" de Reginaldo Rossi, Fernando Filizola e outros) nos anos 60 em Recife, anunciando a tempestade sorridente do que viria mais tarde. E o que o Livro das Transformações tem a ver com essas coisas ? Este livro foi um manifesto contra a mesmice cultura, fincando um outro procedimento e rasgando os papéis de uma poesia e de uma arte de gabinete que até então estivera interessada apenas em se comportar direitinho para poder fazer parte das academias de letras e suplementos literários das províncias. E é claro que a transformação não estava se dando apenas nas letras, mas também nas imagens e na música, profusão de tanto "sentir" e "agir" ao novo que até hoje, quando relido e revisto e remanuseado, provoca aquela mesma sensação da primeira vez em que foi projetado e discutido nos círculos de inteligência do Brasil. "

Será que Chico Science ficou sabendo ? Parte 2

"Aí começaram a aparecer os discos dessa geração, tendo sempre Lula Côrtes e Kátia Mesel como pano de fundo, ora nas capas lindas e no projeto gráfico diferente, experimental, ora na conquista de uma sonoridade "roqueiro-regional" que viria influir definitivamente na estética e no comportamento da música nordestina como forma de apreensão dos ícones da música mundial: Beatles, Rolling Stones, Ravi Shankar, Mahavishinu Orchestra, Yes, Pink Floyd, Jimmi Hendrix, Janis Joplin, etc.
São dessa época, 1973 em diante, os discos PAÊBIRU (de Lula Côrtes e Zé Ramalho, com participação de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Ivinho, Israel Semente, Jarbas Mariz entre outros). ODE A SATWA (de Lula Côrtes e Laílson, com uma música instrumental à base de violão folk e tricórdio, como prenúncio do que aconteceria em João Pessoa com o grupo Jaguaribe Carne, em 1974), MARCONI NOTÁRIO NO REINO DOS METOZOÁRIOS (com a participação de toda a galera pesada do rock-maracatu da época, já plantando as sementes do que seria o manguebeat), AVE SANGRIA (Banda que se chamaria "Tamarineira Vilage" e que tinha Marco Polo como sua base de letras e voz), FLAVIOLA (um disco de cantor muito interessante), entre outros, que foram aparecendo e compondo a cena nova e real da música pernambucana.
Recentemente, o jornalista José Teles lançou o seu livro "Do frevo ao manguebeat" (Editora 34, São Paulo), registro importantíssimo e detalhado de praticamente todos estes acontecimentos aqui relatados, bom de ser lido e estudado por todos aqueles que se interessam pela história da música popular brasileira atual (acho que o Livro das Transformações não está citado por José Teles talvez por se ligar mais nos aspectos gerais da música nordestina, mas é claro que o diálogo da música com a poesia sempre foi mais longe e sempre esteve muito presente em todos os grandes acontecimentos dessa época e os produtos do período testemunham isso. O futuro diria quem estava com razão, ou melhor, quem conseguiria ir mais longe, plantar mais árvores, fazer mais filhos e continuar se fazendo ouvir e ver e ler por esse Brasil e mundo afora. Kátia Mesel virou cineasta, com uma imensa lista de produções, discutindo a urbanidade e o mangue em sua dimensão política, sendo discutida em mostras por todo o país(produção pouco conhecida em João Pessoa), Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Lula Côrtes tiveram e tem um importante papel na música popular brasileira, com discos fundamentais, balizadores de uma evolução (via Raul Seixas) que a partir do começo dos anos 70 uniria pernambucanos e paraibanos no desenvolvimento de um projeto cultural que continua dando bons frutos até hoje.

O movimento manguebeat (Chico Science e Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Mundo Livre S.A., Otto, etc) atualizaria todos esses pressupostos plantados pelo movimento. Movimento este provocado pela ação espontânea e simples do fotógrafo Paulo Klein na cultura das cidades do Recife e Olinda (será que ele realmente teve esta importância sentida por mim no depoimento de vários artistas e produtores ? )

Quanto a Ariano Suassuna, teve uma atuação importantíssima nesse processo por ter criado o outro lado da margem desse rio caudaloso de expectativas fazendo caminhar com inteligência e honestidade lado a lado com essa tempestade desatada pelo rock no nordeste brasileiro, a chama de sua fé sebastiânica, seus causos, seus heróis de tantos cangaceiros de paletó e gravata. Ariano Suassuna e Jomard Muniz de Brito são os responsáveis históricos pela manutenção desse cabo de guerra cultural de tantos "palhaços degolados", imprescindível a qualquer contexto onde a inércia teve que ser tratada a pauladas, para resultar em marcos mais que técnicos, fundamentos mais éticos e estéticos. É claro que o movimento armorial ou romançal não conseguiu produzir o seu "livro das transformações", mas nem por isso deixou de dar as suas contribuições no resguardo dos valores da cultura popular e folclórica, radicalmente e conscientemente defendidas oir Ariano e seus seguidores durante a sua vida de escritor e intelectual. O bom é que essa onda toda mexeu e remexeu na história da cultura nacional para sempre e aí, sim, unindo e somando tudo, o nordestes tenha sido o grande livro das transformações da cultura brasileira para um novo modernismo, uma contemporaneidade politizada que vai sempre buscar a verdade das necessárias transformações. Nordeste de Capiba e Jackson do Pandeiro, de Hermeto Paschoal e Geraldo Vandré, de Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, nordeste do tropicalismo e do armorial, do manguebeat e do mistério que certamente continuará vindo para outros e novos abrigos estéticos. (Nordeste do Mestre Salustiano e de Chico César, de Cachimbinho e Didier Guigue, do Jaguaribe Carne e Zé Filho).

O livro das transformações tem tudo a ver com isso, hoje um farol que continua sendo o grande referencial de uma estética para o nordeste cangaceiro de néon, acrílico das contradições de um povo que ainda vai passar muita fome até conquistar o reconhecimento de sua liberdade armada por uma melhor condição de vida, para um novo começo de conversa. Por aí a gente vai melhor."

Pedro Osmar, 23/09/01