Sábado, 20 de Junho de 2009

Show de Paulinho Pedra Azul em Fortaleza - 2007

Foto de Klaudia Alvarez
Eu nunca tinha assistido a um show de Paulinho Pedra Azul. Não que eu não quisesse, ao contrário, mas ele raramente se apresentava no Rio e quando isso acontecia, ou eu sabia depois, ou não conseguia mais ingressos como aconteceu certa vez no CCBB.
Mas, para minha alegria, na mesma semana em que eu estava em Fortaleza , em agosto de 2007, ele iria fazer um show no anfiteatro do Dragão do Mar.

Finalmente eu estava ali, na platéia, para desfrutar dos versos do poeta, ao vivo e a cores. Os cearenses são muito receptivos com os artistas (e com os turistas também!) então foi um show que todos curtiram muito, inclusive o próprio Paulinho que entusiasmado chegou a prometer: “Ainda vou gravar um disco ao vivo aqui!”.

Cantor, compositor, escritor, artista plástico, este mineiro cheio de talentos é também um excelente contador de “causos” e deliciou o público com várias estórias engraçadas e algumas verdadeiras como ele afirmou. Ele estava acompanhado de seu violão e do jovem compositor Marcelo Jiran, autor das músicas do seu novo CD - 25 anos de Paulinho Pedra Azul - que por sinal teve todas as cópias disponíveis vendidas durante o próprio show. Eu observei que o movimento de compra dos CDs - em uma mesinha localizada perto do palco - não parava durante o show, então para garantir minha cópia também fui lá , ao invés de esperar o final do espetáculo para fazer isso, e foi minha sorte porque em pouco tempo não tinha mais nenhum exemplar à venda.
Cantando (e com o público acompanhando) alguns de seus sucessos e músicas novas, Paulinho fez a alegria de todos que lotaram o anfiteatro. Imitou o jeito de cantar de Raimundo Fagner e revelou que compôs “Ave Cantadeira” especialmente para o cantor gravar, o que infelizmente nunca aconteceu. Em seguida ele cantou “Pobre Bichinho” , que parece ser a música de Fagner que ele mais gosta, já que a gravou duas vezes, sendo uma delas com a participação do próprio. Foi um show incrível e valeu a pena eu ter esperado tanto para conseguir assisti-lo. Paulinho Pedra Azul me conquistou definitivamente com seu talento e simpatia.

Aqui vai a lista das músicas que ele apresentou em Fortaleza:

1-Do amor nasce a canção
2-Para o bem para o mal
3-Cantar
4-O passeio
5-Esperando a feijoada
6-Carinhoso
7-Jardim da fantasia
8-Eu sei que vou te amar
9-Vagando
10-Ave cantadeira
11-Pobre bichinho
12-Quando saí do meu corpo
13-A volta do desencanto
14-Recado para um amigo solitário
15-Jardim da fantasia (BIS)

Domingo, 7 de Junho de 2009

Show de Clodo Ferreira em Brasília


Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Paulinho Pedra Azul


Ele é cantor, compositor, artista plástico, escritor, além de um excelente contador de causos, enfim, é um artista completo. Hoje tem mais de 25 anos de carreira e vários discos gravados de forma independente, sempre com muita qualidade e sua marca registrada.

Abaixo, o registro de uma matéria sobre o início de sua carreira, publicada no jornal “Nossa Música”, de Belo Horizonte, em sua edição no. 12 do mês de dezembro de 1983.
O texto é de Vera Guimarães e a foto que ilustra a matéria é de Fernando Furtado.


“Bem te vi, Tocador sem destino: Paulinho Pedra Azul”

“Falar de Paulinho Pedra Azul é, antes de qualquer coisa, falar de um grande seresteiro. Na simplicidade de seus versos, a gente sente o clima da cidade do norte de Minas, desprovido das modernices da capital. Daí o convívio amigo das pessoas (que ele dá extremo valor), o ouvido colado no rádio, a música coçando as pontas dos dedos. O contato com o violão foi inevitável, que aliás, era do irmão mais velho e tinha que ser dedilhado escondido.

Oito anos de vivência em São Paulo, não tiraram o lirismo das canções e dos gestos. A coisa envolve platéias carentes de algo tão simples: simplicidade. Se perguntado pelo que é sua música, Paulinho não sabe responder ao certo. É um trabalho intuitivo, que um dia pensou ser inferior. Hoje Paulinho está consciente do reconhecimento e isso tem muito a ver com a sua batalha solitária.

Quando morava ainda em Pedra Azul, as coisas novas chegavam pelas rádios, ou pelos amigos que vinham para Belo Horizonte estudar. O pessoal levava discos dos Beatles, Stones, James Taylor, The Mamas and the Papas, e o rapaz Paulinho, fascinado, “O que é isso? Beatles ?” Essas influências iam se agregando a outras, bastante seresteiras: Nelson Gonçalves, Dilermano Reis, Nelson Cavaquinho, e deu no que deu! Tempos depois, os amigos continuavam trazendo novidades de outras paragens. E as histórias contadas o impulsionavam para a metrópole, São Paulo.

Antes disso porém, não podemos omitir o vento novidadeiro dos Festivais, com eles era sempre certo que tinha um público pra ouvir. Em 1972, Festival Folk-Rock-Pop do Sertão em Pedra Azul, só não foi apanhado pelo impacto, porque estava na organização e tinha que manter a cabeça fria. Foi um acontecimento muito louco (no bom sentido), que a cidade não esperava, “a cidade fica tão cheia, que foi preciso pegar um caminhão e despejar gente na Rio/Bahia. E naquela época era hippie, não era mochileiro, era hippie mesmo. Foi uma loucura gostosa, mesclada com aquela coisa interiorana: leite de vaca tirado na hora, muita árvores, coisa de roça que aquela turma que foi do Rio, São Paulo, não tinha muito contato.” Teve ainda os Festivales. Em 77, pegou o 1º lugar com “Ave Cantadeira”, que já estava pronta há muito tempo. Tem gente que acha o Festivale muito fechado, pois só músicos da região podem participar. Paulinho defende, lembrando que existem o baixo, médio e alto Jequitinhonha, e que por isso são três culturas interligadas, mas de formação diferente, “se abrir, vai descaracterizar o objetivo de divulgar isso tudo. Não que vá piorar, mas se o objetivo é valorizar as coisas do Vale, não justifica.” Por causa de posições como essa, Paulinho Pedra Azul enfrenta alguns rótulos. O de divulgador da cultura folclórica do Vale do Jequitinhonha, por exemplo. Seu trabalho fala do Vale, mas não é só isso. O pique é muito mais seresteiro, do que qualquer outra coisa, e isso de seresteiro está em todos os interiores do Brasil, seja no sul ou no norte.

Já faz oito anos que Paulinho se mandou pra São Paulo, buscar a sua brecha. A cidade que oferece tudo que se queira, acolheu o mineiro como a todos, cada um pra si e a cidade pra todos. Sorte que amigos de infância estavam lá para ajudar a segurar a barra, no buteco Fulo da Laranjeira, de propriedade de um deles. Tocava e conhecia gentes , Diana Pequeno, Dércio e Dorothy Marques, Elomar. Aos poucos, sentiu que aquele ainda não era o seu lugar, que seria preciso conquistar um, em outro local. O espaço restrito ia sufocando, foi preciso mesmo mudar de ares. Passou por cerca de 50 cidades do interior paulista, fazendo shows em unidades da FEBEM, tocando para crianças e até para os internos maiores. Experiência gratificante, que ao mesmo tempo serviu para tirar o medo de mostrar suas músicas, coisa de mineiro em terra de paulista.

Nos contatos com as pessoas, Diana Pequeno acabou gravando duas de suas músicas em seu 3º LP, “Vagando” e “Estrelas Mil”. A partir daí foi pintando interesse por parte da RCA, que ofereceu um contrato por três anos. A gravadora, é claro, queria concessões e diante da resistência de Paulinho: geladeira por 1 ano e seis meses. Já tava partindo pro disco independente, quando finalmente cederam 12 dias de estúdio. Como tudo estava pronto desde a época da assinatura do contrato, num instante tava gravado o “Ave Cantadeira”, verdadeiro e simples. Disco pronto, a história não foi diferente, nada de divulgação e mesmo lançamento. Aí começou uma parte muito interessante, com a qual muito artista independente tem o que aprender. O moço partiu pro show, levando o disco debaixo do braço e vendendo. Acabava, comprava mais e começava tudo de novo. Só nessa brincadeira foram 700 discos e com a divulgação boca a boca atingiu a marca dos 10 mil LPs vendidos. A RCA que não esperava nada, levou o maior susto com os pedidos chegando à fábrica, sendo obrigada agora a relançar a Ave Cantadeira.
Contrato renovado, resultado de uma guerra solitária, Paulinho Pedra Azul encantou o público que lotou por três dias o Teatro Chico Nunes, em Belo Horizonte. No palco, despojado e carinhoso para com o público, fica a imagem sonora de um seresteiro de marca maior.”

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Shows em Petrópolis, RJ


Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Djavan - Entrevista de 1982


A entrevista abaixo, saiu na revista de música "Pipoca Moderna" em seu no. 1, lançado em outubro de 1982. O texto é de José Emilio Rondeau e a foto ao lado, que ilustra a entrevista, é de Maurício Valares.


"Há exatamente um ano, quando vasculhava-se ainda em Djavan a procedência de sua tão estranhada música, ele conseguia resguardar uma nesga de anonimato que o permitia até receber voz de prisão em pleno centro de São Paulo - um episódio real que embaraçou delegados, policiais e detetives e que, por fim, transportou Djavan para os primeiros cadernos dos jornais e, possivelmente, apresentou-o a uma grande parcela do público que mantinha-se incólume a sua música, mesmo que de maneira tão gauche. Afinal, naquele tempo Djavan encarnava um fenômeno bastante peculiar na cena musical brasileira: era um artista de prestígio crescente entre os artistas, mas que, de alguma forma, mantinha-se à margem dos ditatoriais playlists das rádios e mais ainda dos toca-discos. Por ineficiência promocional ou cegueira (ou surdez) coletiva, Djavan era um artista adorado por muita gente, mas rigorosamente desconhecido.

Sua música também não ajudava. A capacidade que Djavan sempre teve de, em pinceladas exatas, criar paisagens musicais tão diversas, impossibilitava qualquer fácil deglutição num país tão viciado no venha-a-nós-vosso-reino. As letras falavam de coisas a que todos já haviam se acostumado a ouvir, mas por caminhos poéticos vertiginosamente opostos ao costume, que misturavam verve quase literária a prosa coloquial com uma naturalidade que enervava. Sem contar os ritmos que desnorteiam qualquer um que esqueça que samba, blues, maracatu, maculelê, afoxé e rock tem origem comum na África e aceitam ser transformadas em mesclas democráticas. Na bestificante e assustadora padronização por baixo da maior parte da criação musical brasileira, parecia não haver lugar para Djavan.

O fato é que Djavan só começou a crescer nos olhos e ouvidos do público justamente através de seus admiradores mais ilustres e tão mais digeríveis , como Maria Bethânia (que gravou “’Alibi”) e Roberto Carlos ( que gravou “A ilha”). Nova armadilha formou-se então: Djavan passou de quase desconhecido a compositor sem voz, rosto menos ainda. Mas , pouco depois, começou a rolar uma curiosa bola de neve. Em seu terceiro álbum, Alumbramento, Djavan incluiu uma música que, misteriosamente, conseguiu infiltrar-se nas rádios e acabou tornando-se uma das faixas mais executadas em todo o país em 1980, “Meu bem querer”. A bola não parou mais de rolar. Famoso de súbito,. Djavan ganhou voz, pouco dinheiro – já que nunca fora um grande vendedor de disco a até três meses atrás, embora as bilheterias de seus shows sempre afirmassem o contrário – e, o mais importante, tornou-se um artista desejado por outras gravadoras, as mesmas que antes não pestanejariam uma vez sequer ao dizer-lhe não. Na disputa de seu passe estava a CBS.

A negociação com a CBS durou um ano, até meados de 81. A proposta inicial da gravadora (ambas partes negaram-se a especificar quantias) estava bastante distante do que Djavan pretendia e foram necessárias diversas modificações nos termos da contratação até chegar-se a um acordo. O problema na resumia-se a números, admite Djavan, as foram feitos cinco contratos para que um fosse aceito. No derradeiro, Djavan ainda acrescentou quatro cláusulas e retirou outras três.

Depois de seis meses de um crescendo de expectativa – gerado , em parte, pelo alto pendor badalativo da CBS, em parte pelo simples fato de Djavan já estar, a essa altura, há um ano e meio sem gravar – foi anunciado que Djavan, uma das promessas mais viáveis de verdadeira renovação da música do Brasil, gravaria seu novo disco nos Estados Unidos. Com um produtor norte-americano.

As pedras começaram a chover feito tempestade. O exemplo mais próximo de junção EUA/Brasil em termos de música brasileira, o período Nightingale/Realce/Luar de Gilberto Gil, havia-se mostrado tão fracativo quanto frustrante. Ninguém – inclua aí mais crítica do que público e indústria fonográfica – esperava nem desejava ver mais um artista brasileiro engolido pelo fascínio fácil do ouro de tolo da América. Menos ainda Djavan, ainda tão refrescante, ainda tão potencial. Logo Djavan, que já se mostrara tão avesso à idéia de buscar o que fosse nos Estados Unidos, que já dissera na imprensa que “é fogo fazer um som igual ao que está se fazendo lá fora, onde tudo está zero mesmo, parou tudo, acabou, é aqui que a gente tem que se virar.” Mesmo assim Djavan foi e a CBS apostou suas melhores cartadas em sai ida: na falta de David Grusin e Quincy Jones, concordaram em contratar a produção de Ronnie Foster, que, entre outros já trabalhara com George Benson. Músicos de alto quilate – como o baterista Harvey Mason, o flautista Hubert Laws e o saxofonista Ernies Watts – foram arregimentados para completar a formação habitual da banda de Djavan, Sururu de Capote. E, cacife dos cacifes – Stevie Wonder acabou por adicionar sua gaita ao diálogo em versos de “Samurai”, uma das faixas de LUZ, o álbum que resultaria de 45 dias trancado no Yamaha Studios , em Los Angeles.
Quando retornou ao Brasil, Djavan tinha a sua espera uma imensa curiosidade. E uma animosidade talvez até maior. Afinal de contas, o que Djavan teria ido buscar nos Estados Unidos, justo agora quando uma explosão de popularidade mostrava-se iminente ? Justo agora quando qualquer tipo de concessão, depois de tanta perseverança para não desviar de seu plano de vôo inicialmente traçado, era desnecessário ?
O tão temido sotaque norte-americano de “Luz” – lançado com uma tiragem inicial de 100 mil cópias, 30 mil a menos do que o somatório das vendas de toda a sua discografia anterior – é imperceptível para alguns: indiscutível para outros. E a música de Djavan, aquela coisa tão difícil de explicar, tão intrigante a ponto de ser de duro acesso, mudou ? Mudou, na medida em que toda a experiência norte-americana influiu sobre a sua feitura, na mesma proporção em que viagens anteriores a Angola e a Cuba apontaram nuances em Djavan que estavam nele desde o nascimento, mas que ele ainda na havia realizado a contento. Mudou, também, em certa parte, na embalagem, na medida em que a idéia inicial era de se lançar “Luz”também nos Estados Unidos (pensa-se ainda em uma versão americana do disco). E o Djavan que agora é festejado com queijos e vinhos no Rio Palace e no Maksoud (ele mesmo estranhou os festejos suntuosos quando soube deles, mas cedeu ao ver que a suntuosidade seria reduzida a um mínimo), esse Djavan mudou ?

“Eu sabia do risco de cair no padrão, no invólucro do produto americano,” conta Djavan num estúdio situado estrategicamente abaixo da axila direita do Cristo Redentor, no Humaitá, enquanto Sururu de Capote esquenta as turbinas para mais um longo ensaio antes da excursão nacional que já o levou a Belo Horizonte, ao Rio de Janeiro, a Curitiba e que agora aporta em São Paulo. “Mas o que eu queria era exatamente aproveitar o máximo do que eles tem de bom. Ou seja, a parte técnica, a tecnologia deles, e os músicos, os grandes músicos que eles tem. Eu lutei muito com o Ronnie Foster, que é uma pessoa que eu amo e que ama muito a música brasileira, pra que a coisa não corresse pra margem de lá, você está entendendo ? Porque eles tem aquela coisa de querer americanizar tudo. Por mais que eles gostem...mas é uam coisa inconsciente. São assim desde o começo. Tudo que não é americano é inconsumível. Mas, na minha cabeça, como eles dizem que meu som é internacional, é um som extremamente viável nos Estados Unidos, porque não faze-lo como ele é realmente ? Porque usar o invólucro deles sem na minha opinião, há um marasmo nos Estados Unidos ?”.
“Eu lutei muito. Eu disse – não, tem que ser como tem que ser. Eu não vim pra cá entregar o ouro, assim. Eu vim pra cá fazer o que eu sempre fiz. Aí não teria sentido sair do Brasil, ficar 45 dias longe dos meus filhos, sofrendo uma saudade terrível, pra depois entregar tudo de bandeja pra vocês. Não.”
“Eu sou uma pessoa que não abre mão das coisas que faz”, prossegue Djavan acendendo mais um cigarro de baixos teores e abrindo mais uma lata de coca-cola. “Você não consegue me convencer de uma coisa que eu não quero fazer. Eu acho que só eu tenho certeza. A música, fui eu que criei, meu som já existe, independente de qualquer americano. Eu (e Ronnie Foster íamos) brigar, sair na mão, até, mas não ia ser diferente porque não houve jeito dele segurar a barra de fazer um som como se faz nos Estados Unidos. Caso contrário eu voltaria, arranjaria um outro produtor ou eu mesmo produziria meu disco lá. Mas não foi necessário isso.
Mas será que o resultado obtido em “Luz”não teria sido obtido aqui, já que o interesse principalmente era na tecnologia ? Djavan faz uma longa pausa e olha momentaneamente para os pés, calçados em sapatos chineses negros. “Olha, eu compus esse disco baseado muito numa música mais internacional, mais abrangente. É lógico que minha música nunca foi regional, nunca pretendi que ela fosse. Mas a composição desse disco tem algo de mais além fronteiras. Eu tenho um interesse antigo de expandir meu trabalho, de cantar em vários lugares do mundo, que esse trabalho seja avaliado por todo mundo...mas como foi mesmo a pergunta ? Ah! Obteria o mesmo resultado, em termos de qualidade. Porém, diferente deste. Eu acho que meu disco é diferente”, encerra Djavan antes de ser chamado irrevogavelmente para o ensaio, “da mesma forma que todos os meus discos são diferentes em relação aos anteriores, porque isso é uma busca minha. Eu jamais me contentaria em fazer um novo “Luz”no ano que vem. Aí não teria sentido. E o que eu aprendi durante todo o ano ? E o que eu vivi ? E as novas experiências ? Aí não teria sentido nenhum, porque a vida se transforma a cada minuto, eu me transformo a cada minuto, a minha música se transforma a cada minuto, uma vez que ela é o reflexo da minha passagem por aqui, ela é a minha existência em qualquer lugar do mundo, em qualquer momento.”

A existência de Djavan já o levou a muitos lugares e valeu-lhe uma experiência considerável para seus poucos anos, tornado menores por sua indisfarçável aparência de garoto arredio e carente, sublinhado por um olhar meio tristonho, meio desafiador. Ele é o caçula temporão de três irmãos – ele, Djacy e Djanira – nascido numa família de muitas “mães” em Maceió, Alagoas. “Todo mundo me queria,” confessa rindo, “porque era um garotinho gorduchinho, muito bonitinho, então eu era muito mimado. O que é ruim hoje, porque sou uma pessoa muito dependente, não sei fazer nada sozinho.” E a música entrou fácil na minha vida. Ou como ele prefere, “a minha vida entrou na música. Minha mãe sempre foi uma mulher muito cantante, rítmica (estala os dedos): era uma negra bonita, tinha um quê, uma quebrada africana. Tanto que , enquanto as mães cantavam Boi da Cara Preta, ela fez uma música pra mim: “Passo preto, gavião/segura o Djavan, senão vai o chão/ele é seu Djavan/ e nele só se vê falar/convidou seus camaradas /para poder vadiar/olê, passo preto.
Desnecessário dizer que na divisão rítmica e na poética da canção de ninar já estavam todos os germes que impregnariam absolutamente toda a criação de Djavan.
Contudo, não foi fácil deixar que a música acabasse de ver sua vida entrar nela. Por desejo da família, Djavan seria hoje um sargento do exército. Pensaram até em mandá-lo à Academia de Agulhas Negras, mas ele rebelou-se , fugiu de casa e arrumou um emprego como escriturário da Crush, para logo depois formar sua primeira banda, LSD. “Tocávamos muito Beatles”, diz, “e eu era o Paul McCartney.” Somente anos depois Djavan começaria a compor. E a pensar em ir para o Rio de Janeiro. Casado, com um filho nascido e mais outro na barriga de sua mulher, Aparecida, Djavan desembarcou no Rio em 72, sem conhecer ninguém. Graças às boites, Djavan conseguiu manter-se vivo, até que o radialista Adelzon Alves levou-o à João Araújo, presidente da Som Livre, que se interessou por Djavan e o contratou. O compacto duplo resultante – com “Flor de Lis” e “Fato consumado”, 2º lugar do festival Abertura – sairia apenas três anos mais tarde, por força exclusiva do festival.
Djavan voltou, então, à noite até ser descoberto pelo produtor Mariozinho Rocha no 706, no Leblon, que o lvou da Som Livre para a Odeon. Mas uma coisa incomodava Djavan. Seu primeiro álbum, ainda pela antiga gravadora, fora recebido com frieza pela crítica, que vira nele um “pseudo-Gil”, “porque não (tinha havido) paciência de descobrir a mim mesmo em meu trabalho.” Irado e magoado, Djavan iniciou, então, uma série de discos que, cada vez mais, delineavam uma assinatura personalíssima, progressivamente distante do que muitos viam nele. E que ele não era. Daí, talvez, o misto de estranheza e falta de compreensão como “Cara de índio”, “Alumbramento” e, em parte, “Seduzir” viriam a ser recebidos. A surpresa sempre foi o elemento mais importante da música de Djavan e dela ele sempre soube tirar proveito para tentar eliminar – ou aliviar – qualquer preconceito. Como se empunhasse uma espada de retoque criativo para usá-la com exatidão zen, como um samurai negro em turras contra o gosto pelo morno e imutável.

Os adversários que o Djavan de hoje enfrenta são muito mais sofisticados. Tomam a forma de um passado valioso que de difícil passou a clássico. Tomam a forma de forças antagonísticas que o fazem oscilar – nem sempre por vontade própria – entre o bairrismo e o além fronteiras. Tomam a forma de uma multinacional de discos que quer transformá-lo num astro internacional, provavelmente sem levar em consideração o quanto de genuinidade seu artista possa vir a perder, no meio do caminho.
No que depender do Djavan que em setembro ensaiava no Humaitá, essa nova batalha será tão arrefecida quanto longa, já que, aconteça o que acontecer, pareça o que possa parecer, Djavan é um sujeito basicamente teimoso e seus alvos são muito bem definidos, irrevogáveis. Pelo menos há franqueza quando ele diz isso. E quando diz que, no fundo, sua substância será sempre a mesma. Mutante e o quanto possível sem definição.
“Me incomoda muito isso”, Djavan conta enquanto escurece na rua, “essa coisa toda de sempre procurarem um rótulo, uma marca, de dizerem que Djavan é nordestino, é isso ou aquilo. Nem brasileiro eu quero ser ! Sem o menor preconceito. Eu quero que me digam que eu faço música, apenas.” “Não precisa me dizer que eu sou um compositor de música brasileira. Eu detesto essa sigla, MPB, eu odeio esse negócio , porque acho uma coisa preconceituosa. Eu acho muito ruim querer limitar a coisa que você tem mais pura, que é seu pensamento, sua criação, uma coisa que você tem dentro de você. Eu acho ótimo não ser compositor de nada e, sim, de música.”

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

João do Vale, o Poeta do Povo

João do Vale com Robertinho de Recife - Foto de Klaudia Alvarez

Abaixo, trechos do livro “Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará – Vida e obra do compositor João do Vale, o poeta do povo – de autoria do economista, escritor, letrista e crítico de música Márcio Paschoal – Editora Lumiar, 2000, páginas 164/167.

“O segundo disco de João do Vale tivera sua origem na excursão a Angola, idéia de Chico Buarque imediatamente aceita pelo produtor Fernando Faro.

Chico soube que João do Vale estava há mais de 15 anos sem gravar. Não achara justo e lá mesmo tomara a decisão, prometendo a João:

“Olha, João, eu já fiz muita música, já gravei muito, já fiz show, já escrevi peças de teatro, mas nunca produzi um disco. O primeiro vai ser o seu.”

Chegando ao Brasil, Chico e Fernando Faro acertariam um pré-contrato com a Polygram para a produção do disco de João, que contaria com a participação de vários convidados e incluiria composições já registradas por outros artistas, mas desconhecidas na voz de João. Tom Jobim, Alceu Valença, Zé Ramalho e Nara Leão já havia confirmado suas presenças. Outros artistas estavam sendo contratados, quando começaram alguns problemas com a gravadora, levando Chico a acabar se desentendendo com a Polygram. Graças então à providencial intervenção de Raimundo Fagner, as gravações começariam a ser feitas na CBS.

Para se chegar ao repertório final do disco foi feita uma dupla seleção. Primeiramente João do Vale foi para o estúdio da CBS e gravou 33 músicas, dentre as que mais gostava.

João estava entusiasmado de poder mostrar uma parte maior de sua obra. Estaria assim tentando apagar um pouco da sua imagem de “compositor do Carcará”.

“Sabe, sou muito ciumento, gosto de todas as minhas músicas. É como se todas fossem minhas filhas de carne. Tenho carinho por todas elas. Por isso me dói muito ser apenas aquele que fez o Carcará. Não quero é continuar esmagado por essa música. Quero que o público conheça o resto do meu trabalho.”

Depois das canções escolhidas por João do Vale, a seleção seguinte ficaria a cargo de Chico, Fernando Faro e Fagner, que chegariam às 13 faixas finais. Nelas, João cantava sozinho três: Na asa do vento, As morenas do Grotão e Minha história. Nas outras, dividia o canto com seus convidados: a fatídica Carcará, com Chico Buarque, Pé do Lajeiro, com Tom Jobim, Estrela miúda com Amelinha, Bom vaqueiro, com Fagner, O canto da ema , com Jackson do Pandeiro, Morceguinho, com Zé Ramalho, Uricuri com Clara Nunes, Fogo no Paraná, com Gonzaguinha, Pipira com Nara Leão e Pisa na fulô, com Alceu Valença.

Durante as gravações alguns episódios curiosos surgiriam, como quando o produtor Fernando Faro sugeriu a inclusão de Carolina. João torceu o nariz e falou que não gostava muito daquela música. Diante da insistência de Faro e agora com a interferência entusiasmada do maestro José Briamonte, arranjador do disco, João ia cada vez mais ficando sem saída. O baião Carolina era uma unanimidade, desafiando até Nelson Rodrigues. Não tinha quem não gostasse dela. João então se viu obrigado a confessar, encabulado, que fazia tempo que ele vendera essa música. Diante da estupefação geral, ninguém mais tocaria no assunto. O disco ia sair sem Carolina mesmo.

Apesar de ótimo melodista, João era danado para cantar fora do tom, dependendo do seu estado de espírito e inspiração. Durante as gravações, ele mudava de tom no meio da música ou quando repartia as frases. Os músicos no estúdio iam à loucura: “Mas, João, afinal, qual o tom que você quer ? A resposta era ainda mais desconcertante: “Eu ? Ué, eu quero todos!”

Não tinha jeito, ele ia em todos os tons ao mesmo tempo, e a moçada se divertia “correndo” atrás dele.

O lançamento do disco estava acertado para uma terça-feira, 9 de fevereiro, no Forró Forrado, com a participação de convidados dividindo o palco com João do Vale, precedidos por uma entrevista coletiva e coquetel.

Numa coletiva à imprensa, João ficaria irritado com uma pergunta sobre o possível oportunismo de um golpe de marketing quando da idéia do disco. Tentando acalmar João e sendo o principal idealizador do projeto, Chico Buarque interveio, explicando que a iniciativa da gravação daquele disco não tivera o intuito de fazer caridade barata nem de ser festiva, significando apenas, embora que um pouco tardiamente, o reconhecimento da importância de um artista como João do Vale.

Serenados os ânimos, a Banda do Forró Forrado atacava o frevo Vassourinha, que era para ninguém ficar mais perdendo tempo com entrevistas, perguntadores de ocasião e outrens.

A animação do público (cerca de 500 pessoas), que aplaudia e cantava todos os refrões das músicas apresentadas, e a presença dos amigos Chico Buarque, Clara Nunes, Zé Kéti, Gonzaguinha, Djavan e João Bosco, deixaram o homenageado da noite todo orgulhoso.

À meia-noite a música parou para que João subisse ao palco. Cantou Pisa na fulô, As morenas do Grotão, e depois convidou Chico Buarque para cantarem Carcará, a mesma música que haviam gravado juntos no disco.

Um Chico como sempre encabulado ao microfone, aplaudidíssimo, tentava explicar que a festa era de João do Vale:

“A maior prova de que a noite é de João é que ele não sabe as minhas letras e eu sei as letras das músicas dele...”

Ainda abraçados, cantaram Na asa do vento e a seguir chamaram Clara Nunes para cantar Uricuri. Depois da apresentação do trio, João então recebeu o amigo Zé Kéti, para juntos lembrarem o show “Opinião”, cantando o samba do mesmo nome. Em seguida, juntaram-se a eles Chico e Clara para encerrar o show com o samba “A voz do povo”. João tirou a camisa, jogou-a para a platéia e, de braços dados com Zé Kéti soltou o vozeirão: “Meu samba é a voz do povo/se alguém gostar, eu posso cantar de novo”.

A crítica receberia com ânimo o disco e acabaria se curvando a um João do Vale revisitado que, pelas mãos de Chico e Fagner, acabaria se transformando numa espécie de super-herói da temporada entre os grandes nomes da música popular brasileira.

Sobre o disco, saía a crítica na revista “Veja” em fevereiro de 82:

“O disco, previsivelmente, é uma delirante mixórdia de vozes, timbres e arranjos, com momentos altos e baixos. Em meio a tantos contrastes, a melhor faixa é, curiosamente , a que justapõe os estilos opostos de João do Vale e Tom Jobim. No coco “Pé do lajeiro”, o maestro carioca usa flautas e sintetizadores para armar um belíssimo arranjo jazzístico, num efeito intrigante e devastador”.

O que a maioria das pessoas não sabia era que Antonio Carlos Jobim e João do Vale , já na década de 1950, eram velhos conhecidos de cantoria, bares, cervejas e cachaça, Jobim conhecia muito bem todas as manias, mazelas e o talento do amigo, e considerava João do Vale uma exceção genial do nosso cancioneiro.

O resultado final do segundo disco de sua carreira agradara a João do Vale, que via nele uma manifestação sincera de outros colegas.

“Esse disco tem tanta gente, mas tanta gente, que eu quase nem tô...Eu gosto mais do disco pelo carinho que ele tá sendo feito do que do próprio disco.”

Apesar da receptividade da crítica e da volta aos estúdios, ficara evidente para todos que o grande talento de João do Vale como compositor popular estava a merecer um disco mais trabalhado e menos amador, no sentido mais etimológico ou até filológico da palavra, e que viria a ser tentado mais uma vez pelas mãos do próprio Chico Buarque, ao lado de Raimundo Fagner e do produtor José Milton, 12 anos mais tarde."


Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Projeto Marianna Leporace convida - Às 2as