quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

João do Vale, o Poeta do Povo

João do Vale com Robertinho de Recife - Foto de Klaudia Alvarez

Abaixo, trechos do livro “Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará – Vida e obra do compositor João do Vale, o poeta do povo – de autoria do economista, escritor, letrista e crítico de música Márcio Paschoal – Editora Lumiar, 2000, páginas 164/167.

“O segundo disco de João do Vale tivera sua origem na excursão a Angola, idéia de Chico Buarque imediatamente aceita pelo produtor Fernando Faro.

Chico soube que João do Vale estava há mais de 15 anos sem gravar. Não achara justo e lá mesmo tomara a decisão, prometendo a João:

“Olha, João, eu já fiz muita música, já gravei muito, já fiz show, já escrevi peças de teatro, mas nunca produzi um disco. O primeiro vai ser o seu.”

Chegando ao Brasil, Chico e Fernando Faro acertariam um pré-contrato com a Polygram para a produção do disco de João, que contaria com a participação de vários convidados e incluiria composições já registradas por outros artistas, mas desconhecidas na voz de João. Tom Jobim, Alceu Valença, Zé Ramalho e Nara Leão já havia confirmado suas presenças. Outros artistas estavam sendo contratados, quando começaram alguns problemas com a gravadora, levando Chico a acabar se desentendendo com a Polygram. Graças então à providencial intervenção de Raimundo Fagner, as gravações começariam a ser feitas na CBS.

Para se chegar ao repertório final do disco foi feita uma dupla seleção. Primeiramente João do Vale foi para o estúdio da CBS e gravou 33 músicas, dentre as que mais gostava.

João estava entusiasmado de poder mostrar uma parte maior de sua obra. Estaria assim tentando apagar um pouco da sua imagem de “compositor do Carcará”.

“Sabe, sou muito ciumento, gosto de todas as minhas músicas. É como se todas fossem minhas filhas de carne. Tenho carinho por todas elas. Por isso me dói muito ser apenas aquele que fez o Carcará. Não quero é continuar esmagado por essa música. Quero que o público conheça o resto do meu trabalho.”

Depois das canções escolhidas por João do Vale, a seleção seguinte ficaria a cargo de Chico, Fernando Faro e Fagner, que chegariam às 13 faixas finais. Nelas, João cantava sozinho três: Na asa do vento, As morenas do Grotão e Minha história. Nas outras, dividia o canto com seus convidados: a fatídica Carcará, com Chico Buarque, Pé do Lajeiro, com Tom Jobim, Estrela miúda com Amelinha, Bom vaqueiro, com Fagner, O canto da ema , com Jackson do Pandeiro, Morceguinho, com Zé Ramalho, Uricuri com Clara Nunes, Fogo no Paraná, com Gonzaguinha, Pipira com Nara Leão e Pisa na fulô, com Alceu Valença.

Durante as gravações alguns episódios curiosos surgiriam, como quando o produtor Fernando Faro sugeriu a inclusão de Carolina. João torceu o nariz e falou que não gostava muito daquela música. Diante da insistência de Faro e agora com a interferência entusiasmada do maestro José Briamonte, arranjador do disco, João ia cada vez mais ficando sem saída. O baião Carolina era uma unanimidade, desafiando até Nelson Rodrigues. Não tinha quem não gostasse dela. João então se viu obrigado a confessar, encabulado, que fazia tempo que ele vendera essa música. Diante da estupefação geral, ninguém mais tocaria no assunto. O disco ia sair sem Carolina mesmo.

Apesar de ótimo melodista, João era danado para cantar fora do tom, dependendo do seu estado de espírito e inspiração. Durante as gravações, ele mudava de tom no meio da música ou quando repartia as frases. Os músicos no estúdio iam à loucura: “Mas, João, afinal, qual o tom que você quer ? A resposta era ainda mais desconcertante: “Eu ? Ué, eu quero todos!”

Não tinha jeito, ele ia em todos os tons ao mesmo tempo, e a moçada se divertia “correndo” atrás dele.

O lançamento do disco estava acertado para uma terça-feira, 9 de fevereiro, no Forró Forrado, com a participação de convidados dividindo o palco com João do Vale, precedidos por uma entrevista coletiva e coquetel.

Numa coletiva à imprensa, João ficaria irritado com uma pergunta sobre o possível oportunismo de um golpe de marketing quando da idéia do disco. Tentando acalmar João e sendo o principal idealizador do projeto, Chico Buarque interveio, explicando que a iniciativa da gravação daquele disco não tivera o intuito de fazer caridade barata nem de ser festiva, significando apenas, embora que um pouco tardiamente, o reconhecimento da importância de um artista como João do Vale.

Serenados os ânimos, a Banda do Forró Forrado atacava o frevo Vassourinha, que era para ninguém ficar mais perdendo tempo com entrevistas, perguntadores de ocasião e outrens.

A animação do público (cerca de 500 pessoas), que aplaudia e cantava todos os refrões das músicas apresentadas, e a presença dos amigos Chico Buarque, Clara Nunes, Zé Kéti, Gonzaguinha, Djavan e João Bosco, deixaram o homenageado da noite todo orgulhoso.

À meia-noite a música parou para que João subisse ao palco. Cantou Pisa na fulô, As morenas do Grotão, e depois convidou Chico Buarque para cantarem Carcará, a mesma música que haviam gravado juntos no disco.

Um Chico como sempre encabulado ao microfone, aplaudidíssimo, tentava explicar que a festa era de João do Vale:

“A maior prova de que a noite é de João é que ele não sabe as minhas letras e eu sei as letras das músicas dele...”

Ainda abraçados, cantaram Na asa do vento e a seguir chamaram Clara Nunes para cantar Uricuri. Depois da apresentação do trio, João então recebeu o amigo Zé Kéti, para juntos lembrarem o show “Opinião”, cantando o samba do mesmo nome. Em seguida, juntaram-se a eles Chico e Clara para encerrar o show com o samba “A voz do povo”. João tirou a camisa, jogou-a para a platéia e, de braços dados com Zé Kéti soltou o vozeirão: “Meu samba é a voz do povo/se alguém gostar, eu posso cantar de novo”.

A crítica receberia com ânimo o disco e acabaria se curvando a um João do Vale revisitado que, pelas mãos de Chico e Fagner, acabaria se transformando numa espécie de super-herói da temporada entre os grandes nomes da música popular brasileira.

Sobre o disco, saía a crítica na revista “Veja” em fevereiro de 82:

“O disco, previsivelmente, é uma delirante mixórdia de vozes, timbres e arranjos, com momentos altos e baixos. Em meio a tantos contrastes, a melhor faixa é, curiosamente , a que justapõe os estilos opostos de João do Vale e Tom Jobim. No coco “Pé do lajeiro”, o maestro carioca usa flautas e sintetizadores para armar um belíssimo arranjo jazzístico, num efeito intrigante e devastador”.

O que a maioria das pessoas não sabia era que Antonio Carlos Jobim e João do Vale , já na década de 1950, eram velhos conhecidos de cantoria, bares, cervejas e cachaça, Jobim conhecia muito bem todas as manias, mazelas e o talento do amigo, e considerava João do Vale uma exceção genial do nosso cancioneiro.

O resultado final do segundo disco de sua carreira agradara a João do Vale, que via nele uma manifestação sincera de outros colegas.

“Esse disco tem tanta gente, mas tanta gente, que eu quase nem tô...Eu gosto mais do disco pelo carinho que ele tá sendo feito do que do próprio disco.”

Apesar da receptividade da crítica e da volta aos estúdios, ficara evidente para todos que o grande talento de João do Vale como compositor popular estava a merecer um disco mais trabalhado e menos amador, no sentido mais etimológico ou até filológico da palavra, e que viria a ser tentado mais uma vez pelas mãos do próprio Chico Buarque, ao lado de Raimundo Fagner e do produtor José Milton, 12 anos mais tarde."


2 comentários:

Eumario J. Teixeira disse...

Parabéns pela postagem Klaudia,
Por coincidência assisti hoja na TV cultura um especial de João do Vale, ele era uma versão black de Luiz Gonzaga, o cara era demais. Minhas preferências musicais sempre foram o blues e rock dos anos 50, 60 e 70; de MPB eu selecionei mais, só escuto Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Ednardo, Cartola, Paulinho da Viola, Beto Guedes, Lô Borges, Chico Buarque, etc. Ou seja sou saudosista. Vou passar a acompanhar seu blog. Até.
Eumário - MG

Roberto rodrigues disse...

muito legal esse post, fiquei fascinado pela música e vida do joão do vale. valeu por este presente