"Aí começaram a aparecer os discos dessa geração, tendo sempre Lula Côrtes e Kátia Mesel como pano de fundo, ora nas capas lindas e no projeto gráfico diferente, experimental, ora na conquista de uma sonoridade "roqueiro-regional" que viria influir definitivamente na estética e no comportamento da música nordestina como forma de apreensão dos ícones da música mundial: Beatles, Rolling Stones, Ravi Shankar, Mahavishinu Orchestra, Yes, Pink Floyd, Jimmi Hendrix, Janis Joplin, etc.

O movimento manguebeat (Chico Science e Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Mundo Livre S.A., Otto, etc) atualizaria todos esses pressupostos plantados pelo movimento. Movimento este provocado pela ação espontânea e simples do fotógrafo Paulo Klein na cultura das cidades do Recife e Olinda (será que ele realmente teve esta importância sentida por mim no depoimento de vários artistas e produtores ? )
Quanto a Ariano Suassuna, teve uma atuação importantíssima nesse processo por ter criado o outro lado da margem desse rio caudaloso de expectativas fazendo caminhar com inteligência e honestidade lado a lado com essa tempestade desatada pelo rock no nordeste brasileiro, a chama de sua fé sebastiânica, seus causos, seus heróis de tantos cangaceiros de paletó e gravata. Ariano Suassuna e Jomard Muniz de Brito são os responsáveis históricos pela manutenção desse cabo de guerra cultural de tantos "palhaços degolados", imprescindível a qualquer contexto onde a inércia teve que ser tratada a pauladas, para resultar em marcos mais que técnicos, fundamentos mais éticos e estéticos. É claro que o movimento armorial ou romançal não conseguiu produzir o seu "livro das transformações", mas nem por isso deixou de dar as suas contribuições no resguardo dos valores da cultura popular e folclórica, radicalmente e conscientemente defendidas oir Ariano e seus seguidores durante a sua vida de escritor e intelectual. O bom é que essa onda toda mexeu e remexeu na história da cultura nacional para sempre e aí, sim, unindo e somando tudo, o nordestes tenha sido o grande livro das transformações da cultura brasileira para um novo modernismo, uma contemporaneidade politizada que vai sempre buscar a verdade das necessárias transformações. Nordeste de Capiba e Jackson do Pandeiro, de Hermeto Paschoal e Geraldo Vandré, de Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, nordeste do tropicalismo e do armorial, do manguebeat e do mistério que certamente continuará vindo para outros e novos abrigos estéticos. (Nordeste do Mestre Salustiano e de Chico César, de Cachimbinho e Didier Guigue, do Jaguaribe Carne e Zé Filho).
O livro das transformações tem tudo a ver com isso, hoje um farol que continua sendo o grande referencial de uma estética para o nordeste cangaceiro de néon, acrílico das contradições de um povo que ainda vai passar muita fome até conquistar o reconhecimento de sua liberdade armada por uma melhor condição de vida, para um novo começo de conversa. Por aí a gente vai melhor."

Nenhum comentário:
Postar um comentário